Augusto
Silva Santos
Fur.
Mil. da CCAÇ. 3306 em Jolmete (Pelundo - Teixeira Pinto)
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- Aventura com final feliz…
Todos
tínhamos grande admiração pelo Comandante da Milícia. Era um grande
guerrilheiro, grande conhecedor da região no Chão Manjaco, fiel aos seus
princípios, amigo do seu amigo, daí que ainda hoje seja recordado com respeito
pela generalidade daqueles que com ele lidaram mais de perto. Infelizmente o
Dandi, como muitas outros que estiveram do nosso lado, acabaria por ter um fim
trágico, após a nossa retirada da Guiné. Pura e simplesmente foi eliminado em
circunstâncias mais ou menos obscuras, como é “usual” nestes casos.
Fora
o aspecto militar, era uma pessoa como tantas outras e, enquadrada naquilo que
era considerado natural socioculturalmente dentro das diversas etnias na Guiné,
ou seja, com um peso religioso muito determinante no que respeita ao
relacionamento e tratamento dos seus filhos e suas mulheres.
Sendo
quem era, para além do que já referi no contesto militar, também no aspecto
civil, se assim se pode considerar ou desassociar, era igualmente muito
respeitado (ou temido?), tendo um estatuto acima da média dos restantes
elementos da população masculina da tabanca, daí que no meu tempo de Jolmete,
era casado (ou possuía) 4 mulheres. Era uma situação perfeitamente aceite por
todos tendo em conta a sua crença religiosa, que nem sequer chocava aqueles que,
da nossa parte, se assumiam mais ortodoxos quanto a esses hábitos,
religiosamente falando.
Até
aqui tudo bem, só que o nosso amigo Dandi nem sempre se mostravam muito
“civilizado” (no nosso conceito) relativamente ao relacionamento que tinha para
com as suas mulheres, sendo por vezes uma pessoa muito agressiva e até
prepotente. Era do nosso conhecimento que com alguma frequência lhes batia,
principalmente nas mais velhas, algo que de facto nos incomodava mas, dadas as
circunstâncias, não tínhamos grandes hipóteses de interferir.
Estando
este facto em determinada altura a tomar proporções alarmantes, diria mesmo,
preocupantes, uma das suas mulheres tomou a decisão de fugir, daí ter tentado
por diversas vezes obter sem êxito o “passaporte” (guia de transporte) para
dali sair e assim escapar aos maus tratos a que estava a ser sujeita.
Ora
isto era algo quase impensável, e ninguém se atrevia a deixar sair umas das
mulheres do Dandi, sem ele ter conhecimento de tal facto. Ela só poderia
ausentar-se de Jolmete se houvesse uma prévia autorização do Comandante da
Milícia. Pôr-se a caminho sozinha, estava fora de questão, pois seria facilmente
apanhada, pelo que a única solução era mesmo aproveitar uma das ausências do
marido para sair através de um transporte, primeiro até ao Pelundo, e depois
com ajuda de familiares iria tentar seguir para norte. Para que isto resultasse
era preciso o envolvimento (conivência) de várias pessoas, dada a
“complexidade” da situação.
Tomada
a decisão por parte do meu amigo Borges, 1º Cabo impedido do Comandante de
Companhia, em ajudar a infeliz mulher, restava organizar o esquema para que os
resultados fossem os desejados. Assim, em determinado dia de ausência mais ao
menos prolongada do Dandi e coincidente com uma coluna para o Pelundo,
combinou-se a fuga da Nhimba Djassi. Para não sair directamente do quartel, ela
apanhou a viatura na bolanha onde íamos à água, cujo abrandamento era quase
obrigatório, e onde se montava sempre uma pequena segurança para entrada de
outro pessoal. A mesma era conduzida pelo nosso amigo “Bob”, que já estava
identificado com o esquema. Sendo eu o chefe de viatura, limitei-me a conferir
se estava tudo correcto com a guia de transporte, e lá seguimos viagem.
Até
ao dia em que o Dandi chegou e se deparou com a fuga desta sua mulher, as
coisas aparentemente correram bem, só que não tendo ele conseguido trazer de
volta a Nhimba para casa por já não estar no Pelundo, começaram as
complicações. Soubemos mais tarde que ela havia conseguido chegar até ao
Cacheu, e dali até uma aldeia na fronteira do Senegal, sítio onde praticamente estaria
a salvo de uma possível investida do seu marido.
O
Comandante de Companhia ainda tentou resolver pessoalmente o assunto, mas não
conseguiu convencer o Dandi a esquecer o comportamento da mulher, pelo que o
acontecimento passou para o conhecimento do Comandante de Batalhão, e mais
tarde para o Comandante do CAOP1, Coronel Paraq. Rafael Durão. Quando o vimos
sair da sua DO a perguntar pelo Cabo que havia passado a guia de transporte
para a Nhimba, para lhe partir o “focinho” (era hábito ele resolver tudo ao
murro e à chapada), o Borges já não sabia onde se havia de meter, e nós
pensámos logo, “estamos feitos”.
Comigo
e com o “Bob” acabou por não haver qualquer problema, pois limitámo-nos a dar
cumprimento ao que era normal nestas situações mas, com o Cabo “Bigodes”, tendo
a situação ultrapassado o que estava estabelecido, as coisas começaram a
complicar-se. Importa salientar que o Dandi era medalhado com a Cruz de Guerra,
e tinha alguma influência / impacto junto das altas esferas militares, e foi
assim que inclusive o assunto chegou também ao conhecimento do General Spínola.
Tendo
este acontecimento ocorrido já bem perto do final da comissão e, portanto, já
de saída de parte do Batalhão para o Cumuré, começaram desde logo a correr os
mais variados boatos tais como, que o Borges ia ficar preso, que o Companhia ia
ser castigada com mais tempo de comissão, que o Dandi havia de se vingar, enfim
era já a ansiedade da partida para a metrópole a baralhar o raciocínio do
pessoal.
A
situação não ficou resolvida sem o nosso amigo Borges ser chamado ao
Quartel-General já bem perto do dia do embarque, onde se deparou com uma mesa
cheia de oficiais superiores para saberem o que efectivamente se havia passado.
Contou ele mais tarde que o interrogatório foi de tal ordem, que a determinada
altura quase faltou dizer que ele até nem gostava de mulheres, pois o problema
descambou para a possibilidade do seu possível envolvimento com a Nhimba.
Felizmente lá conseguiu argumentar da melhor forma (dar a volta ao texto),
explicando que tudo não tinha passado de um grande equívoco e baralhação de
nomes.
O
General Spínola acabou por dar o caso como encerrado, mas o Cabo “Bigodes” só se
sentiu realmente seguro e aliviado, quando o navio Uíge largou amarradas e,
pelo Geba abaixo, se dirigiu ao alto mar.
Como
se costuma dizer, não ganhou (ganhámos) para o susto… No fim, tudo acabou em
bem, até porque o Dandi acabaria por aceitar sem mais problemas o desfecho.
Importa salientar que a Nhimba Djassi era a sua mulher mais velha, talvez por
isso se tornasse mais fácil arranjar uma outra mais nova… (minha suposição).
31 - Jolmete -
Maio 1972 Entrada do meu abrigo
32 - Jolmete - Maio 1972 Entrada do meu abrigo
48 - Jolmete -
Junho 1972 Trilhos de Pioce
71 - Jolmete - Agosto 1972 Estrada Velha de Bula
74 - Jolmete - Agosto 1972 Regresso da segurança
à água
Augusto
Silva Santos
03-10-2012
Publicado
por
Manuel
Resende (Ferreira)
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